quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Intelectuais de esquerda e espionagem

Importante texto sobre o modo de colaboração indireta e involuntária que a intelectualidade de esquerda pode oferecer aos serviços de espionagem dos aparelhos repressivos burgueses.

Vale muito refletir sobre os seguintes destaques

"Hoje, no Brasil, a melhor maneira de conhecer um movimento, o perfil dos/as aderentes, suas táticas, sua história e suas influências, de modo a introduzir infiltrados ou reprimir com eficiência, reside na simples leitura daquilo que os profissionais de inteligência denominam “fontes abertas”, com especial destaque para artigos e livros produzidos por cientistas sociais."

(...)

"Em tempos de nítido recrudescimento repressivo, a intelectualidade que discorre em eventos, capítulos de livros ou periódicos sobre a faixa etária, a escolaridade, os locais de moradia, as atitudes em relação ao Estado e elementos afins associados a ativistas presta um relevante serviço à repressão. Assim como nenhuma consciência crítica publicaria relatos etnográficos sobre comunidades judaicas em periódicos científicos sob a Alemanha nazista ou dados demográfico-quantitativos sobre os participantes detidos no malogrado congresso da UNE em Ibiúna durante a ditadura brasileira, não faz muito sentido oferecer ao amplo acesso trabalhos sobre assuntos como “o que pensam os black blocs”, “como são as relações entre familiares nas ocupações do MTST” ou “como se comunicam os jovens que ocupam escolas em SP e de que modo conhecem o movimento”. Isto não é ciência, por faltar a reflexividade e a contextualização acerca de sujeito cognoscente, objeto cognoscível e ambiente de descoberta em dose mínima exigida para essa prática. Trata-se, antes, de serviço de inteligência orientado à repressão da dissidência política e social, inobstante se faça por ingenuidade ou por adesão consentida."

(...)

"Enquanto agentes de inteligência de Estado tentam estudar - malgrado sua usual indigência intelectual e inépcia científica – os movimentos sociais, seria de esperar que a intelectualidade crítica procurasse compreender o funcionamento, as subjetividades, os traços culturais, a história e a lógica dos serviços de inteligência. Da mesma maneira, a compreensão sociológica da direita social, do sectarismo cristão e do grande empresariado se revelaria indispensável para quem, de fato, pretendesse ultrapassar as formas de dominação ocorrentes em nossa sociedade. Ademais, temas como finanças públicas, direito tributário, organização societária corporativa, mercado de capitais, doutrinas militares, técnicas de propaganda comercial e uma infinita gama de objetos associados a inúmeros campos disciplinares, usualmente preteridos pelo pensamento que se identifica como gauche, se definem como imprescindíveis para a conformação de uma crítica, assim entendida em sua única modalidade digna desse nome, qual seja, aquela que é a um só tempo imanente, demolidora e transformadora."


REFERÊNCIAS
De que lado você samba_ Sobre cientistas sociais e o “infiltrado do Tinder” _ Blog Junho
http://blogjunho.com.br/de-que-lado-voce-samba-sobre-cientistas-sociais-e-o-infiltrado-do-tinder/

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